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"Um dos mais talentosos, produtivos e generosos artistas portugueses das últimas décadas". As reações à morte de Julião Sarmento

Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa já reagiram à morte de Julião Sarmento. Em declarações à Rádio Observador, a ministra da Cultura destacou uma ...

“Um dos mais talentosos, produtivos e generosos artistas portugueses das últimas décadas”. É assim que o Presidente da República descreve Julião Sarmento, que morreu esta terça-feira aos 72 anos, numa nota, publicada no site da presidência, onde envia as condolências à família.

Marcelo Rebelo de Sousa destaca, no percurso de Julião Sarmento, “vindo da Escola de Belas-Artes” o facto de ter trabalhado “na Secretaria de Estado da Cultura logo após a Revolução, contribuindo para a reconfiguração das práticas artísticas em Portugal” e de ter sido “um dos nomes escolhidos por Ernesto de Sousa para uma exposição que fez época, a Alternativa Zero, em 1977”.

Por essa altura, já usava os mais diversos registos, sobretudo a pintura, o desenho e o vídeo, e já estava atentíssimo ao contemporâneo, a correntes, conceitos, cruzamentos, modos de produção e difusão”, lê-se ainda.

O Presidente aponta ainda que, “nas décadas seguintes, tornar-se-ia o mais internacional dos artistas portugueses, expondo em galerias e museus europeus, americanos, japoneses, e participando nas Bienais de Veneza e de São Paulo e na Documenta de Kassel”. “Também se notabilizou como colecionador e curador, deixando um importante acervo que emprestou à cidade de Lisboa”, escreve Marcelo, adiantando que esse acervo “será exposto em breve”. O chefe de Estado considera ainda que Julião Sarmento deu “provas de abertura e entusiasmo, nomeadamente com as gerações mais jovens”.

Morreu o artista visual Julião Sarmento. Tinha 72 anos

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Marcelo remata considerando que de Julião Sarmento será lembrada “a modernidade provocante das sucessivas séries, muitas delas à volta da figura feminina, da palavra literária ou do cinema”, “o seu alinhamento com o novo e o vibrante”, “a sua presença ímpar no nosso tempo e no nosso imaginário, que nos ajudou a ser deste tempo e a imaginá-lo”.

Admitindo estar “um pouco em choque”, a ministra da Cultura lembrou Julião Sarmento como alguém que “foi, é e será sempre um artista com uma importância ímpar nas artes plásticas portuguesas”. Em declarações à Rádio Observador, Graça Fonseca destacou a “obra extraordinária que marcou muito Portugal, dos anos 70 e 80”, numa altura em que o país “precisava muito de se reinventar, de se abrir, de se modernizar”.

Graça Fonseca: “Julião Sarmento será sempre um artista com uma importância ímpar”

“Julião Sarmento foi sempre um artista modernista, um artista moderno, sempre em diálogo com a literatura, o cinema, a música. Alguém muito especial, muito particular. É também um legado muito importante: a forma como projetou o país, através da sua arte. E devermos sempre muito a Julião Sarmento“, afirmou a governante.

O primeiro-ministro António Costa recorreu ao Twitter para lamentar “profundamente” a morte de Julião Sarmento. “Fazendo parte de uma geração cosmopolita que renovou a prática artística nos anos 1980, Sarmento deu um importante contributo para a internacionalização da arte portuguesa”, escreveu o primeiro-ministro, manifestando as suas “mais sentidas condolências à família e amigos”.

Lamento profundamente a morte de Julião Sarmento. Fazendo parte de uma geração cosmopolita que renovou a prática artística nos anos 1980, Sarmento deu um importante contributo para a internacionalização da arte portuguesa. As mais sentidas condolências à sua família e amigos.

— António Costa (@antoniocostapm) May 4, 2021

Para a artista Joana Vasconcelos, “pensar no meio artístico da arte contemporânea sem o Julião é quase impossível”. “O Julião era uma figura tutelar e é uma figura tutelar da arte contemporânea em Portugal”, disse em declarações à rádio Observador, acrescentando que Sarmento “era um comandante da nau cultural”.

Ficar sem o Julião é ficar, sem dúvida, mais pobre. É ficar com uma obra fantástica de qualquer maneira”, afirmou.

Joana Vasconcelos acredita que a herança de Julião Sarmento “vai continuar a existir, vai continuar a marcar, vai continuar a ser exposta e continuar a influenciar todos os portugueses”. “Isso não desaparece. Agora, desaparece a figura. E figura era muito importante, pelo qual tínhamos todos muito carinho. A família artística fica hoje mais pobre, fica hoje mais triste”, afirmou.

Também à rádio Observador, o antigo jornalista e fotógrafo Manuel Falcão lamentou esta notícia “inesperada” e “tristíssima” e descreveu Julião Sarmento como “excecional” e “um dos mais importantes artistas portugueses contemporâneos”. Em 2019, Manuel Falcão e Dalila Pinto de Almeida lançaram um livro que resultou da visita, ao longo de mais de um ano, ao espaço de trabalho de 14 artistas plásticos portugueses — um deles, Julião Sarmento. “Não era só um grande artista, mas uma excelente pessoa, que gostava da vida e dos amigos. A sua obra ficará muito para além do que é a vida. Foi à sua obra que consagrou a vida e ela vai permanecer”, disse.

O diretor-geral da Fundação EDP, Miguel Coutinho, também lamentou a “grande perda” de “um dos grandes artistas plásticos portugueses” e “talvez um dos artistas portugueses com maior projeção internacional, com uma obra extensa, multifacetada” que faz dele uma “enorme referência para as gerações mais novas de artistas plásticos em Portugal”. A Fundação EDP, considera, “mostrou uma das suas facetas menos conhecidas: a de colecionador“. Prova disso foi a exposição “Afinidades Electivas”, em 2015, “com obras que Julião Sarmento foi colecionando ao longo da sua vida, obras de artistas com quem se cruzou, com quem fez amizades”. Enquanto pessoa, Miguel Coutinho caracteriza Julião Sarmento como alguém “generoso, afável, que todos os anos celebrava os seus anos com centenas de amigos na sua casa do Estoril“.

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O artista e crítico de arte Alexandre Pomar relembrou um “jovem artista que assegurou a passagem do tempo da Alternativa Zero, pelo Ernesto de Sousa, de quem era amigo, para o modernismo”. “Essa passagem de uma exposição para a outra, assinalou uma nova afirmação geracional de jovens artistas. Nesse momento, isso significou o começo da afirmação da geração dos anos 80″, explicou em declarações ao Observador.

Alexandre Pomar considerou que este início dos anos 80 “foi muito marcado pelas relações internacionais que Julião conseguiu estabelecer”. Nos anos seguintes, “continuou a carreira sempre com uma grande capacidade”: a de conjugar a produção artística com a promoção da sua própria obra — “que é uma coisa que passou a caracterizar os artistas das novas gerações”. “É uma referência quer em relação à obra, quer em relação ao momento em que se afirmou e em que contribuiu para a afirmação do novo panorama artístico e de uma nova geração”, rematou.

O crítico e curador Miguel von Hafe Pérez sublinhou a “extrema coerência de um percurso com mais de 50 anos”, o qual tem ficou marcado por “alguns elementos de raridade no contexto da arte nacional.” “De uma forma muito individual, Julião Sarmento acabou por tocar diferentes média, trabalhando com a pintura, a instalação ou o filme, linguagens que no início dos anos 70, quando ele começou, não eram predominantes no contexto das nossas artes visuais”, declarou o crítico ao Observador.

Miguel von Hafe Pérez conheceu Julião Sarmento há três décadas e recordou nesta terça-feira a exposição de 1992 na Fundação de Serralves, no Porto (ainda antes da instalação do atual Museu de Serralves). “Foi uma das suas exposições mais importantes até então em Portugal”, referiu. “A nossa amizade começou nessa altura e foi muito além das relações profissionais. Acompanhei sempre o percurso dele e tive a sorte de ser curador de uma exposição dele. Foi uma pessoa que mostrou sempre uma grande generosidade para com as gerações mais novas. A partir do momento em que estabelece um corpo de obra próprio, vai manter essa coerência por todo o seu percurso, o que o torna um caso único e leva a que tenha obra reconhecida no contexto nacional e internacional.”

Quando Portugal era um país muito fechado, Julião Sarmento já tinha uma participação em exposições internacionais de grande relevância. Depois da revolução do 25 de Abril, acabou por ser protagonista de uma abertura da cena artística nacional, “num trânsito que sobretudo Lisboa acabou por aproveitar de forma importante na década de 80”, segundo von Hafe Pérez.

“Ele tinha uma paixão absoluta, acompanhada de grande profissionalismo, relativamente à sua prática própria. Ao mesmo tempo, uma infinita curiosidade, que levou gerações jovens de artistas, críticos e curadores a verem nele uma figura exemplar. Essa compulsão pela arte, fez com que se tornasse também um grande colecionador”, sublinhou o crítico.

A diretora do Atelier-Museu Júlio Pomar, em Lisboa, lembrou o encontro em 2016 entre Julião Sarmento e Júlio Pomar naquele mesmo espaço no contexto da exposição Void. “Representavam duas gerações não coincidentes, o que implicava necessariamente uma clivagem. A geração a que pertence Julião Sarmento procurava destacar-se da geração anterior, de Júlio Pomar, que tinha sido um artista sucedido e já singrado. A exposição que fizemos foi, por isso, um magnífico reencontro de gerações, um estreitar de relações entre pares que se conheciam mas não tinham uma ligação muito forte. Encontraram pontos comuns, afinaram cumplicidades e posso dizer que na sequência desta exposição o Julião Sarmento recomendou o Júlio Pomar para uma exposição importantíssima com curadoria de Okwui Enwezor”, contou Sara Antónia Matos.

A diretora daquela instituição sublinhou que Julião Sarmento se dava com criadores de todas as idades e expressões, pelo que “terá sido das figuras que mais pugnaram por uma cumplicidade entre artistas”.  “Não conheço artista que não conhecesse o Julião ou não se desse bem com ele. Agregava as pessoas, suscitava companheirismo e participações, não só ao nível profissional mas também pessoal. Terá sido exemplar nisso”, notou Sara Antónia Matos.

O crítico, curador e historiador Pedro Lapa, que conheceu Julião Sarmento no início da década de 90 e a quem estava ligado por uma “amizade infinita”, recordou-o nesta terça-feira como “uma pessoa extremamente disponível”. Trabalharam juntos em diferentes ocasiões, incluindo em 2002, no Museu do Chiado, em Lisboa, quando Pedro Lapa organizou uma retrospetiva de Julião Sarmento relativa à década de 70.

“Marca um antes e um depois na história da arte portuguesa”, classificou. “Julião Sarmento é o princípio de todo o entendimento da arte que temos hoje. Há uma diferença significativa na obra do Julião relativamente a outros artistas da mesma geração ou anteriores. A partir da década de 70, ele traz um novo entendimento do objeto artístico e de como pode ser trabalhado. Nesse sentido é obviamente o pai de toda arte contemporânea mais recente, uma figura absolutamente tutelar no contexto português.”

Pedro Lapa, ex-diretor artístico do Museu Coleção Berardo (2011-17) e do Museu do Chiado (1998-2009), referiu ainda que Julião Sarmento criou ao longo das décadas “trabalhos de uma riqueza profunda” que lhe permitiram “obter um reconhecimento internacional generalizado”. Foi “o primeiro grande artista com reconhecimento internacional que continuou a produzir a partir do contexto português”, disse, acrescentando que nesse caminho abriu portas a outros. “Deu passos muito significativos para romper o isolamento da arte portuguesa, inclusivamente é significativo o conhecimento que têm dele grandes artistas norte-americanos mais velhos do que ele, como Dan Graham ou Lawrence Weiner. Conseguiu dar um passo para vencer esse trauma da arte portuguesa, que é o do seu isolamento do resto do mundo. É pena que o contexto português não perceba isso e tenha até involuído muito desde então.”

O escultor e artista plástico português José Pedro Croft também já lamentou a morte de Julião Sarmento. Em declarações ao Observador, explicou que os dois conheceram-se “no final dos anos 70”, aquando da exposição Alternativa Zero. “Lembro-me de o Julião estar nessa altura ligado a essa exposição e termo-nos conhecido aí. Foi o primeiro encontro que tivemos. Depois, enfim, são 40 e tal anos…”

Para José Pedro Croft, Julião Sarmento era “A pessoa ou uma das muito poucas pessoas que tinham uma ideia de que era preciso estar no mundo. Não bastava estar… isto foi muito antes de Portugal ter entrado na União de Europa, de haver estes grandes centros culturais do Reina Sofia, do Guggenheim Bilbao, de Serralves, do próprio CAM [Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian]. Era um país cinzento e difícil e o Julião era um sonhador mas que construía ao mesmo tempo, que trabalhava para construir — não era só sonhador”.

Nesse final dos anos 70, não era ainda possível prever o percurso que Julião Sarmento teria, diz José Pedro Croft: “Na altura, no mundo da arte não tínhamos uma ideia de percurso, tínhamos uma ideia de vida. A arte não era uma carreira e não se pensava na história da arte, pensava-se em fazer coisas. Era um amor à liberdade, um amor à experimentação, era um espanto sobre a vida e sobre a realidade. Não tinha nada a ver com o mundo da arte ligada ao mercado e a carreiras, como acontece mais agora”.

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Dizendo ser “muito desconfiado em relação à história” e vincando que “é a história que tem de se tornar digna dos autores que tem”, José Pedro Croft alerta que “as pessoas é que podem cuidar de um legado ou destruí-lo”. Porém, “se as pessoas estiverem ao nível de tomar conta do legado, têm muito que cuidar e receber. Mas isso é uma coisa que nos cabe a cada um de nós”.

O Julião sendo uma pessoa de uma enorme ambição, era uma pessoa que abria portas e tentava que os outros portugueses — amigos ou não — usufruíssem das portas que ele abria. Era de uma grande generosidade. Isso é a ambição da maneira mais nobre. Sempre vi o Julião a gostar que outros artistas da geração dele e mais novos conquistassem e construíssem. Era uma pessoa que abria portas, não era uma pessoa que as fechava”, vinca ainda José Pedro Croft.

O conselho de administração da Fundação Calouste Gulbenkian também já lamentou a morte de Julião Sarmento, recordando o seu carisma e descrevendo-o como “um dos mais importantes artistas portugueses da sua geração”.

Em comunicado enviado à agência Lusa, a Fundação Gulbenkian cita a presidente, Isabel Mota, que o recorda como “um amigo pessoal, mas sobretudo da Fundação, um dos mais carismáticos artistas nacionais cujo percurso foi acompanhado de muito de perto, através de inúmeras exposições individuais e coletivas”.

Isabel Mota sublinha que a Gulbenkian se orgulha de incluir no acervo do Centro de Arte Moderna (CAM) “obras excecionais representativas do trabalho do Julião Sarmento ao longo de décadas, que o colocam no centro da produção artística contemporânea internacional”.

Julião Sarmento está representado na coleção do CAM da Fundação Calouste Gulbenkian com 29 obras, entre as quais pinturas relevantes dos anos de 1980 e 1990, várias séries de gravuras, um filme experimental dos anos 1970, e obras mais recentes que integraram a coleção nos últimos anos.

Em 1993 e em 2000, a fundação acolheu duas exposições retrospetivas do seu trabalho que, “a par de um conjunto de subsídios concedidos ao artista, promoveram a sua obra em Portugal e no estrangeiro, sedimentando a sua internacionalização”, recorda ainda, no comunicado.

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