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Morreu o artista plástico Julião Sarmento

O artista plástico e pintor Julião Sarmento morreu, esta terça-feira, aos 72 anos.

Catarina Ferreira

Hoje às 08:54

O artista plástico e pintor Julião Sarmento morreu, esta terça-feira, aos 72 anos.

Julião Sarmento faleceu hoje aos 72 anos, vítima de cancro. O artista de ar seráfico, nome maior das artes plásticas portuguesas, continuava a reinventar-se, a inaugurar vários trabalhos, a envolver-se em novos projetos. Como dizia, " ser artista é uma forma de vida, não é uma forma de trabalho" e assim alimentava a sua ida quotidiana ao ateliê: por um princípio hedonista.

Nasceu em 1948, em Lisboa, filho único e sobrinho único, destacava-se pelo espírito criativo mas nem sempre era bem interpretado. Na Escola D. João I, em Lisboa, tinha como amigo Jorge Palma, companheiro das aulas de piano. Queria ir para Pintura mas sabia que no Portugal da ditadura isso "seria um suicídio", pelo que decidiu estudar Arquitetura. Mas insistia, como o disse, em entrevista ao Jornal i: "Acho que sou muito bom artista, mas seria um péssimo arquiteto".

Um dos grandes amigos que fez logo ali na Escola de Belas-Artes foi o artista Fernando Calhau, falecido em 2002. Juntos, assistiam a um dos artistas que mais influenciou Sarmento, o realizador italiano Michelangelo Antonioni; era habitual relembrar o filme "A noite", que tinha visto no cinema São Jorge.

Nos tempos de estudante trabalhava para outros artistas, tendo nessa altura a oportunidade de adquirir a sua primeira obra de arte, um quadro do então seu patrão, o artista Joaquim Rodrigo. O ano passado, Julião Sarmento cedeu a sua coleção, com mais de 1200 peças, ao Pavilhão Azul, um novo Centro de Arte Contemporânea que a Câmara Municipal de Lisboa vai criar, entre as quais está a referida obra de Joaquim Rodrigo.

Paralelamente, ia fazendo trabalhos como gráfico, professor de Inglês e fotógrafo de moda. Até que em 1968, com 20 anos, quando ainda andava na tropa, participou numa exposição de alunos da Escola de Belas-Artes.

A carreira artística inicia-se em todo o seu fulgor na década de 1970, marcada por influências culturais anglo-saxónicas e onde utiliza linguagens diversificadas: pinturas, filmes, colagens de materiais heteróclitos, montagens fotográficas ou encenações de textos onde coloca em jogo vários elementos, desde a apropriação de imagens e citações literárias à fragmentação das formas, pondo-os ao serviço de um discurso plástico marcado pelo desejo e a pulsão erótica.

"Há um filme muito giro do Truffaut chamado 'L'homme qui aimait les femmes' e eu sou um pouco como ele: morreu atropelado por um Porsche quando ia a olhar para as pernas de uma mulher. Há piores maneiras de morrer", comentou em entrevista ao Jornal I. Era com alegorias destas que demonstrava o amor pelas mulheres, fonte inesgotável de inspiração.

Dizia: "Apaixono-me a toda a hora e a todo o instante. Faz parte da vida". E por isso mesmo casou três vezes. Assim na arte como na vida " O desequilíbrio é o que me interessa. Interessa-me muito mais o desequilíbrio do que as coisas estáveis. As coisas muito estáveis e certinhas não levam a lado nenhum a não ser a uma pasmaceira de café com leite. Interessam-me muito mais as coisas que estejam à beira do precipício", comentou numa entrevista ao programa "Fala com ela".

Na década de 1980, Julião Sarmento acompanha a mudança de paradigma, o que no seu caso determina o "regresso à pintura" figurativa e expressionista. É o período das "Pinturas brancas", em que predomina o desenho a grafite sobre fundo branco, onde os corpos quase se desmaterializam, reduzindo-se a linhas de contorno, e onde o vemos centrar-se na representação do feminino. A sua pintura torna-se num recetáculo de imagens e modos de pintar heterogéneos . O efeito produzido por essa sobreposição remete sobretudo para dois universos, o da literatura e o do cinema, eixos estruturantes da sua obra. Nesta época participa em duas edições sucessivas da Documenta de Kassel, que tiveram impacto na sua carreira internacional. .

"Um artista que não faça concessões é esmagado", disse um dia, em entrevista ao "Diário de Notícias" e quando se sentia assim viajava para os Estados Unidos da América. "Quando preciso de recarregar baterias, é para Nova Iorque que vou." Julião Sarmento está representado em 13 galerias espalhadas pelo mundo: Lisboa, Porto, Londres, Berna, Madrid, Barcelona, Munique, Turim, Bruxelas, Nova Iorque, Los Angeles, São Paulo e Nagoya. Uma sólida carreira internacional, ainda que nunca quisesse sair de Portugal.

A 9 de junho de 1994 foi agraciado com o grau de Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada. Mas, como dizia com alguma mágoa sobre o reconhecimento, "destacaria quando representei Portugal na Bienal de Veneza, em 1997. Em 50 anos de carreira foi a única vez que representei o meu país. A única. E acho que fiz um bom trabalho".

O ano passado, um volume com fotografias da sua autoria foi editado pela Pierre von Kleist. A obra, intitulada "Café Bissau. Fotografias 1964-2017", inclui imagens de médio formato, coloridas, a preto e branco, digitais e analógicas. Julião Sarmento fotografou durante 40 anos, e as suas imagens cobrem uma ampla variedade de interesses, que vão do retrato às experimentações com a luz.

A sua obra foi alvo de retrospetivas no De Witte de Witte (Roterdão, 1991), Centro de Arte Reina Sofia (Madrid, 1992), Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa, 1993, 2000). Em 2011 a Tate Modern, em Londres, criou um "Artist Room" com obras suas. Em 2012-2013, o Museu de Serralves, no Porto, organizou "Noites brancas", a mais completa retrospetiva até hoje realizada do seu trabalho e que lhe valeu a atribuição do Prémio AICA 2012.

"Porra, não! Farei os possíveis para não morrer mas, se acontecer, que seja o mais tarde possível", comentou em entrevista ao Jornal I.

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